À cata de antigas letras, fui vasculhar minhas caixinhas de velhos, embolorados e obsoletos disquetes, quase todos emperrados e mau-humorados. Olha só o que achei. Uma literal "surpresa de Verão". Uns três ou quatro anos se passaram desde que juntei as letrinhas desse texto. Valeu a pena recordar!A emoção é uma veia que pulsa sem dar avisos. Ela pode dá sinais nos momentos mais inesperados. E pode se originar de uma fonte seca, ou transbordante, ou simplesmente de uma fonte que apenas começou a jorrar. Foi de uma fonte assim que aconteceu conosco...... O Verão que preguiçosamente insistia em não chegar, explodiu em claridade e cores no exuberante cenário de Genipabu, bem ali em Guarajuba. Surpreendeu o nosso mal humor, mudou a direção das nossas intenções, adiou nossos objetivos, engavetou nossas metas e nos convidou para sorver goles de felicidade, rara felicidade. Não àquela felicidade de sonhos realizados, de missão cumprida... mas a simples felicidade de se descobrir tão natureza, tão terra, tão mar e tão céu, como o próprio universo. A bucólica felicidade de vivenciar a própria existência, o cheiro da alma, do corpo, do mar..... Foi lá que me refugiei. Um refúgio providencialmente divino. Um toque de carinho precioso nascido na infância, adormecido, mas revivido no tempo certo, no momento exato. Um aconchego capaz de me permitir descer o véu - mesmo que temporariamente -, e encobrir dores de amores, feridas, mágoas, decepções, dúvidas, medos, tristezas, incertezas.... E usufruir o Verão. A cada amanhecer azul, o acalanto de um dia cenográfico..... mas vivo, real. A cada anoitecer, o embalo de rumores marítimos, sussurros e estrelas..... A lua prometia surgir plena. E pratear o mar. Ansiávamos pela sua chegada. Os efeitos dela, porém, já produzia reflexos em todos nós. Sensibilidade em fogo. As crianças não foram poupadas.... e foram elas as principais protagonistas da nossa maior emoção de Verão. A lua prometia...... No final da tarde, fomos recebidas em casa com mimos infantis com ares de gente grande. Mesa especial na varanda com taças de cristal plenas de coca-cola e compotas enfeitadas de biscoitos de chocolate, salgadinhos e bombons. Tudo o que elas adoram. Era uma surpresa regada ao som de Ana Carolina ! E fomos mesma surpreendidas ao ver nossas filhotas brincando de gente grande só para nos agradar, para dizer " mãe, eu te amo" . Elas estavam felizes. E nós emocionadas. Fomos convidadas para ver a lua brilhar o mar. Por elas. Topamos um tanto resistentes. Que decisão acertada! Elas pareciam querer prolongar aquele momento tão íntimo, tão visceral, tão umbilical. Por conta própria, trocamos a coca-cola por vinho e fomos .... A lua nos iluminou na areia por inteiro. O vinho nos inebriou. As crianças nos encantaram, despertaram sentimentos maternos.... quantas vezes indolentes. Olhávamos as crianças correndo na areia como sombras iluminadas. A lua rasgava uma nesga de mar, prateando a água e revelando a silhueta de pescadores amadores que insistiam em capturar os desavisados peixes que se arriscavam à beira mar. Era tudo mágico..... Fomos brindadas com canção, performances e frases de amor escritas na areia. Frases lambidas pelo mar e levadas para as profundezas das nossas almas, dos nossos corações. Frases cravadas para sempre em nossas memórias. E na eternidade das lembranças infantis..... Ali, tivemos algumas certezas: que Deus existe... que fazemos parte do universo criado por ele e que....seja lá o que aconteça conosco, seja lá para onde a vida nos levar, estaremos para sempre juntos. Nós e nossos rebentos. Eles que, apesar de tão pequenos, foram grandes em nos proporcionar momentos de pura delicadeza. E nos ensinaram a lição de que não podemos perder de vista sentimentos e emoções... .....que poderemos até tesourar o cordão umbilical, mas nunca o vínculo que nos une... O mesmo vínculo que impulsiona a vida de todas as Andreias, Joanas, Anas, Adrieles, Blumas, Joaquinas, Veras, Rosas, Carolinas e Samuelitas da vida.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
Surpresa de Verão
A Arte de Catar Letras
Navio, avião, telefone - Graham Bell é dos meus preferidos - TV, celular(êta grambelzinho fantástico)..... e sem esquecer da roda, porque essa rodou mais que a baiana. Todas invenções extraordinárias. Mas nada se compara ao que considero a maior invenção de todas. A,B,C,D..... O alfabeto. Ah!, essa enigmática sopa de letrinhas inventada - dizem - pelos fenícios lá pelos idos de 1000 a.C, é simplesmente imbatível. Contam as boas línguas que eles usavam a abstração para transformar som em letras, criando assim o primeiro alfabeto que se tem notícia na História. Foi dessa forma que, pelo amor de Deus, passamos do cuneiforme sumério e dos hieróglifos egípcios para algo, digamos, mais popularzinho. Difundido entre os povos do Mediterrâneo, o alfabeto fenício se desdobrou em aramaico, hebraico, copta, árabe e o grego. Continua difícil. Mas aí o grego vem e dá àquele presentinho básico: o etrusco. Reclamação vai,lamentação vem e tudo acaba em latim. Ufa! menos mal. Mas como a ladainha não deu muito certo, uns ajeitam daqui, outros dali e pimba! surge o português. Pronto. Tudo certo. Acaba aqui privilégios de escribas e realezas. A humanidade inteira começa a sua grande odisséia de Catar Letras e....... enxergar o mundo. Como ele realmente é!
E aqui vamos nós!
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